“Alpha” é, sem dúvida, um filme que consegue encontrar uma luz no fim do túnel, mesmo que apresente uma estrutura narrativa por vezes desconexa.
Montagem não linear e a sensação de caos
A construção do filme de Julia Ducournau, ao contar a história de uma adolescente de 13 anos que, após fazer uma tatuagem em uma festa com uma agulha potencialmente contaminada, desencadeia um pânico profundo em sua mãe, mostra-se enigmática e pode, sim, ser meio confusa. Isso ocorre principalmente por não nos contar a história de uma maneira cronológica, já que sua montagem, que alterna entre passado e presente, nos joga em várias situações até transformar tudo aquilo em um caos absoluto.
Mas, ao fazer isso, entrega uma experiência sufocante, que transita habilmente entre o real e o onírico, deixando no ar um desconforto constante que é, ao mesmo tempo, repulsivo e fascinante.
Atuações excepcionais e conflitos familiares

As atuações do elenco são excepcionais. Tanto Mélissa Boros (Alpha), quanto Golshifteh Farahani (mãe de Alpha) e Tahar Rahim (tio de Alpha) conseguem entregar excelentemente seus personagens. Essa excelência é mostrada principalmente nos momentos de desespero do meio para o final, onde tudo começa a ruir com a mãe tentando salvar o irmão, o irmão se afundando cada vez mais nas drogas e Alpha tentando sobreviver nesse ambiente hostil, tanto dentro de casa quanto na escola. Cada fala e cada expressão são certeiros, transmitindo dor, agonia e muitas vezes, falta de esperança.
Primor técnico: Efeitos práticos e o contraste da Areia
O aspecto visual e técnico também é outro ponto positivo, principalmente quando se trata da doença. Ao investir em maquiagem prática com próteses, o filme consegue dar um destaque excelente na transformação dessas pessoas, com todas aquelas rachaduras, o brilho e sua textura. Isso se torna ainda mais excelente em uma das cenas em que a mãe de Alpha está tirando uma amostra das costas do irmão e, de uma hora para outra, as costas se quebram, saindo areia em vez de sangue, dando um contraste belo e agoniante em um momento tão desesperador.
E claro, isso sem falar da paleta de cores e da iluminação, que ajudam muito naquele clima claustrofóbico e sem esperança, com tons terrosos e frios e uma iluminação vermelha que aparece tanto em cenas com o sangue quanto no final, onde vemos aquele deserto de areia, mesmo que seja feito por cgi para dar um final enigmático.
O desafio da linha temporal
Porém, novamente digo que é um filme para se prestar atenção, pois infelizmente pode ser confuso em sua construção. Ele não tenta explicar ou ser harmonioso quando se trata de uma linha linear; como o passado e o presente são postos juntos, acaba que pode causar uma confusão, fazendo ou não uma pessoa ficar perdida sobre o que está acontecendo em certos momentos.
Conclusão: Uma obra intriguante
Alpha” realmente é um filme que, mesmo sendo confuso e tendo um final aberto — por ser um entretenimento não tão comercial quanto os outros filmes de hoje —, ainda assim é intrigante e corajoso ao tentar trazer essa proposta. Certamente vale a pena ser conferido para que cada um tire sua própria interpretação.
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