Alguns filmes não precisam dizer muitas palavras para transmitir aquilo que querem. Em vez de entregar todas as respostas ao público, deixam espaço para que cada espectador tire suas próprias conclusões. E, certamente, “Nosso Segredo” é um desses filmes, executando essa proposta com precisão.
Toda a sua construção é feita a partir desse princípio. O filme deixa nas entrelinhas grande parte daquilo que quer contar, fazendo com que o espectador interprete cada situação, seja a de uma garota que está terminando com o namorado ou a de um jovem que, de certa forma, está se rebelando contra a própria família.
Essa escolha faz com que a experiência seja mais contemplativa, permitindo que cada cena tenha diferentes interpretações e que os sentimentos de luto ou as questões raciais dos personagens sejam compreendidos não apenas por meio dos diálogos, mas também por suas ações e pelo ambiente ao redor, que deixa de ser apenas um ambiente e passa a funcionar quase como um personagem vivo dentro daquela narrativa.
Aliás, é nesse aspecto, a fotografia de Wilssa Esser e a direção de arte e ambientação de Diogo Hayashi trabalham muito bem juntas. Por se tratar de um ambiente fechado e escuro, a casa consegue transmitir o isolamento daquela família.
Embora todos estejam no mesmo espaço, cada personagem ocupa o seu próprio mundo e enfrenta o luto e os outros conflitos de uma maneira diferente. Essa distância emocional é reforçada justamente pela construção daquele ambiente.
À medida que a casa começa a se deteriorar, fica ainda mais evidente que ela não é apenas um cenário. O filme consegue transformá-la em uma espécie de organismo vivo, que acompanha o estado daquela família.
No início, mostra-se um local meramente comum, mas que vai ficando fechado e claustrofóbico à medida que os minutos passam. Novas rachaduras vão aparecendo e o ambiente vai ficando sujo, até o momento em que tudo se destrói e desaba, ficando cheio de lama. Isso mostra como o sentimento daquela família acabou explodindo, pois, quando a gente não se expressa, uma hora tudo explode.
A dinâmica da família e do ambiente basicamente se unem, tornando-os parte de um todo, mesmo que cada um tenha suas próprias questões.
Ju Colombo se destaca como a âncora emocional da família

Claro que, para isso, as atuações também são um dos grandes pontos positivos da produção.
Começando por Ju Colombo, ela consegue transmitir muito bem todo o trauma carregado por sua personagem. Ao mesmo tempo em que precisa ser a âncora emocional da família, é perceptível que ela também sofre, mas guarda grande parte dessa dor para si.
Essa construção ajuda a tornar a personagem ainda mais humana, mostrando que, mesmo sendo uma das figuras responsáveis por sustentar aquela família emocionalmente, ela também está tentando lidar com suas próprias feridas.
Efraim Santos e Flip representam diferentes formas de lidar com a realidade
Efraim Santos, intérprete do filho caçula, mesmo sendo mais contido em alguns momentos, consegue entregar uma performance excepcional. Sua atuação transmite muito bem a inocência infantil e faz com que sua presença seja importante para o desenvolvimento emocional da narrativa.
Já Flip, que faz o irmão mais velho, constrói uma mistura de tensão, frustração e raiva que permanece contida durante boa parte do filme, até chegar ao momento em que esses sentimentos finalmente explodem. É um personagem que não quer encarar completamente a realidade e tenta fugir dos conflitos, mas que, ao mesmo tempo, demonstra o quanto ama sua família.
O restante do elenco ajuda a construir as diferentes relações da família
Jéssica Gaspar, como a irmã, funciona como uma importante ponte entre os personagens. Sua presença transmite parte da calma necessária em meio aos conflitos, trazendo diferentes nuances para cada momento em que aparece.
Robert Frank consegue construir um personagem frágil que, apesar de carregar a responsabilidade de ser o homem da casa, não consegue lidar completamente com tudo aquilo que acontece ao seu redor. Sua forma de fugir daquele ambiente, buscando refúgio no trabalho, reforça justamente essa dificuldade em enfrentar os próprios sentimentos.
Marisa Revert, como a avó, consegue transmitir uma presença cênica marcante, mesmo com poucas falas. Glaucia Vandeveld, interpretando a vizinha, traz uma atuação mais naturalista, ajudando a aproximar aquela história da realidade.
Por fim, Juan Queiroz interpreta um personagem que está presente, mas que, ao mesmo tempo, não consegue realmente habitar aquele ambiente e compreender tudo o que aquela família enfrenta. Ele tenta, de diferentes formas, fazer com que eles — ou pelo menos sua namorada — voltem a encarar a realidade.
Todos eles transformam essa trama aos poucos, cada um do seu jeito, levando aquilo que estava fadado a ficar contido a uma explosão de sentimentos. É um momento em que todos precisam aceitar o que aconteceu e se unir ainda mais. Afinal, aquela estrutura familiar se mostrava deteriorada no início, mas, com a ajuda do elenco, vai construindo suas questões e revelando tudo o que há para revelar.
Vale a pena assistir “Nosso Segredo”?
Claro que “Nosso Segredo” é um filme de ritmo lento, ainda assim, consegue fazer com que nos apeguemos aos personagens e sintamos parte daquilo que eles estão enfrentando.
Mesmo sem o compromisso de explicar literalmente o significado de cada cena, o filme consegue transmitir seus sentimentos por meio de suas imagens, atuações e ambientação. É uma produção indicada para quem procura uma experiência mais contemplativa e gosta de filmes que deixam espaço para refletir e tirar suas próprias conclusões sobre a vida.
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