Aposto que muitos já se perguntaram como seria se descobríssemos vida fora da Terra, e “Dia D” explora muito bem esse imaginário popular, transformando o que poderia ser um simples filme de alienígena em uma trama densa e puramente humana.
Em “Dia D”, Steven Spielberg consegue não só construir um filme lúdico — assim como vemos em várias de suas obras, como “E.T. – O Extraterrestre”, “A.I. – Inteligência Artificial” e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, que trazem uma visão mais fantasiosa —, mas desenvolve a fragilidade humana e o medo do desconhecido de tal maneira que dilemas éticos, morais e religiosos se tornam essenciais para essa trama, contando ainda com o seu temperinho frenético, já que conta com várias perseguições do início ao fim, fazendo essa trama possuir várias camadas ao longo de sua duração.
E, mesmo que pareça um apanhado de informações no início, o longa é construído para que cada elemento tenha seu espaço, evoluindo principalmente cada um de seus personagens com precisão. Isso vai desde os seus protagonistas, que são interpretados por Josh O’Connor e Emily Blunt, revelando cada vez mais deles — contando com suas ambições, seus medos e suas motivações —, até seus antagonistas, como o personagem de Colin Firth, que se mostra uma figura autoritária e acha que sabe o que é melhor para a sociedade, mas que também tem seus medos e seus anseios, sabendo a hora de parar. Ou seja, Spielberg faz com que cada personagem tenha a sua importância, dando a essa trama uma dose de profundidade sem deixar pontas soltas, mesmo que seu personagem tenha pouca participação. Assim, uma mínima fala traz total significado para aquele momento.
Atuações excepcionais e o confronto da fé

Claro que, para que tudo aconteça, tivemos atuações excepcionais do elenco inteiro, mas principalmente de Emily Blunt. Sua performance é basicamente o pilar desse filme, atuando não só com suas falas, mas com seu olhar que diz mais de mil palavras em seus momentos de desespero ou confusão. Podemos dizer que foi uma das melhores atuações de sua carreira, marcando esse filme para sua história.
Aliás, é muito interessante como o filme brinca com a questão da fé de seus personagens, mas não de uma maneira para ofender. A todo momento a trama tenta confrontar a fé de seus personagens, já que, em um cenário de crise, confrontar a fé acaba sendo algo comum. Aqui, com o questionamento “Será que estamos sozinhos?”, o roteiro faz com que eles duvidem de si mesmos, mesmo quando acabam vendo o impossível, algo até comum, pois qualquer um iria duvidar, dando aquele ar de realidade. É uma discussão sutil, mas acaba sendo um tema central que ganha uma importância para o desenvolvimento de sua história, seja para acabar com a fé ou para reencontrá-la.
E, para salientar isso que eu falei, ao apresentar uma personagem que acha que perdeu a fé em Deus e descobre que, na verdade, sua desilusão era com as pessoas, o filme cria uma conexão não só com a obra, mas com o público, mesmo que ela apareça pouco na trama, afinal todo mundo já teve dúvida sobre alguma coisa. Além disso, estabelecer um passado ligado à igreja confere uma densidade maior à narrativa, pois não se discute apenas a fé abstrata, mas sim algo mais palpável.
Essa simbologia faz com que a obra flua bem em todos os aspectos e, mesmo que ainda tenhamos um final aberto, traz uma sensação de história concluída.
O acerto do lúdico e o contraste técnico
Sobre a parte lúdica, podemos dizer que, ao Spielberg manter a característica fantasiosa de suas obras — trazendo aqueles seres alienígenas e nos mostrando a infância dos seus protagonistas, quando realmente vemos a abdução —, o diretor consegue manter aquela magia, mesmo que de certa forma seja um filme mais sério. Assim, sua marca registrada não se perde, apenas cria mais níveis.
Agora, nos aspectos técnicos, tudo praticamente foi perfeito. Desde a trilha sonora e a fotografia até a montagem, o filme consegue criar uma harmonia naquele ambiente. Porém, o CGI pode causar uma estranheza, já que a gente percebe que, querendo ou não, não é tão realista — tanto na parte do alienígena no final quanto na parte em que vemos as crianças, onde fica claro que tem computação gráfica ali. Não que seja algo que atrapalhe a experiência, mas é algo que fica bem visível.
Conclusão: Uma obra de muitas camadas
“Dia D” é realmente um retorno triunfal. É um filme que vale a pena ser visto por todas as suas camadas, já que não é apenas uma história frenética, mas profunda.
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