“Um Dia de Sorte em Nova York” é, sem dúvidas, um retrato nu e cru de uma sociedade sem máscaras, onde, para se viver — ou sobreviver —, o ser humano pode se tornar aquilo que nunca imaginou ser.
O peso da dignidade como moeda de troca
Desde os seus primeiros minutos, o filme não tenta agradar. Cada cena, por mais desconfortável que seja, é feita para mostrar um mundo sem filtros, utilizando-se da história de Lu JiaCheng (Chang Chen) que é contada dentro do período de 48 horas, para revelar um universo real onde tudo tem seu preço, usando a dignidade humana de nosso personagem como moeda de troca para nós mostrar como esse mundo é cruel, mesmo que isso signifique mentir para aqueles que ama ou cometer atos que pela lei não seriam permitidos.
A performance visceral de Chang Chen

Claro que, para tudo isso ser possível, o ator Chang Chen construiu um personagem visceral, em que cada expressão facial evidencia a decadência de um cidadão desolado, que vai perdendo toda a sua sanidade, a ponto de seu próprio olhar parecer vazio e sem esperança.
Isso também se estende para a atriz Mirim Carabelle Manna Wei, que interpreta a filha do protagonista e consegue construir uma garota que, por mais ingênua que seja, percebe tudo ao seu redor sem dizer uma única palavra. Mesmo com o pai tentando disfarçar, mentindo e dizendo que está tudo bem para não preocupar a família, sua personagem entende o peso do mundo que ele carrega sobre os ombros.
Com isso, o diretor Lloyd Lee Choi consegue criar não apenas personagens densos, mas humanos, que se preocupam a cada minuto de suas vida, ao mesmo tempo que ainda tem um pouco de inocência, retratando a sociedade como ela realmente é.
Isso fica muito evidente em uma das cenas finais do filme, quando pai e filha se abraçam. O pai exibe uma expressão de alívio e angústia ao olhar pela janela, enquanto sua filha, com toda a sua inocência, o abraça, transmitindo amparo e trazendo sua sanidade de volta sem precisar dizer nada, como se qualquer palavra pudesse quebrar aquele momento frágil.
Essa dupla, sem dúvidas, foi certeira na construção desse universo fictício, que, ao mesmo tempo, se mostra extremamente real para muitas pessoas.
A Cidade como antagonista claustrofóbico
Mas isso não seria possível também sem a ambientação. Cada cenário te sufoca com aqueles tons mais frios e cinzentos, junto de ambientes quase claustrofóbicos das periferias, ajudando na construção da solidão e do desespero. Ao filmarem o ator naqueles becos cheios de concreto, a fotografia traz uma sensação de prisão, uma percepção de que não somos nada em meio ao mundo.
Sua trilha sonora ainda evoca uma sensação de corrida contra o tempo para compor aquele cenário de 48 horas. O protagonista está ali, mas tem que fazer de tudo para que sua família chegue bem e não perceba a sua situação, enquanto a trilha sonora está a todo momento a vapor, gerando essa sensação de pressa. Ao mesmo tempo, temos os barulhos da cidade — os ruídos de um lugar movimentado que não precisa de música para ser o seu próprio personagem, sufocando não só o protagonista, mas os telespectadores também.
Conclusão: Uma obra Necessária e inquieta
“Um Dia de Sorte em Nova York” está longe de querer agradar, mas ainda é um filme essencial que nos mostra a realidade nua e crua de um mundo injusto e que, infelizmente, temos que percorrer dia a dia, tentando sobreviver nessa imensidão metálica e cheia de concreto.
O filme pode ser assistido pelo Filmelier+.
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